Pág. 16 - Almas Primaverais





Almas Primaverais
José Antonio Jacob

A tarde brinca em meu quintal sem cores
E sem saber da dor que existe em mim,
Pendura um sol no céu, colore flores
E o meu quintal então vira um jardim.

Tardes primaverais chegam assim...
Desvanecendo nossos dissabores
E nos dão esperanças e favores
A nos sorrir e a nos dizer que sim.

Como essas tardes claras de esplendor,
Que um dia esquecemo-nos de notar,
Existem almas que só dão amor.

São essas almas as criaturas boas
Que só vieram ao mundo para amar
A vida sem amor de outras pessoas.




Comentário
Professora Maria Granzoto da Silva
Arapongas - Paraná

Introdução

È impressionante a maneira como este artista, não só da palavra, mas de tudo que se refere à Arte, trabalha seus poemas! É, na verdade, um iluminado! É ímpar, é o todo e o tudo! Um universo cultural que os “cegos cerebrais” deste País não tiveram ainda, nem mesmo os da sua terra natal, “olhos para ver”! Ou será que sou uma demenciada que vê e sente o que a maioria parece não ver, nem sentir? Olhem para a tela que ilustra este poema!Fotografia? Ledo engano! Olhem para esse quadro! Quantos detalhes, quanta pureza! Algo que brotou de mãos de algum pintor impressionista, a cada pincelada! Não sei se Claude Monet, Cézanne, Édouard Manet. Na minha ignorância sobre o assunto, sou mais Monet ou, quem sabe, Cézanne.

O Impressionismo possui a característica de quebrar os laços com o passado e diversas obras de Manet são inspiradas na tradição. Suas obras, no entanto serviram de inspiração para os novos pintores.

O termo impressionismo surgiu devido a um dos primeiros quadros de Claude Monet (1840-1926) Impressão - Nascer do Sol, por causa de uma crítica feita ao quadro pelo pintor e escritor Louis Leroy "Impressão, Nascer do Sol-eu bem o sabia! Pensava eu, se estou impressionado é porque lá há uma impressão. E que liberdade, que suavidade de pincel! Um papel de parede é mais elaborado que esta cena marinha". A expressão foi usada originalmente de forma pejorativa, mas Monet e seus colegas adotaram o título, sabendo da revolução que estavam iniciando.

Bem, mas e o soneto? O tem a ver com tudo isso! Muito, senhores, muito!

O título
“Almas Primaverais”

O poeta Jacob, também profundo conhecedor e estudioso da Língua Portuguesa, criou, se não me trai a miopia dos sentidos, quase um neologismo. Almas Primaveris, segundo a norma culta, seria para qualquer outro. Mas ele foi além porque “primaverais” representa muito mais que flores! E, que se tenha conhecimento, o poeta que usou a palavra “primaveral”, no singular, no poema “Provincianas” foi o escritor português Cesário Verde. Por isso, este poema nos conduz às mais recônditas maneiras e modos de sentir, de pensar, de ver o mundo seccionado e, ao mesmo tempo, globalizado!

O primeiro quarteto

A tarde brinca em meu quintal sem cores
E sem saber da dor que existe em mim,
Pendura um sol no céu, colore flores
E o meu quintal então vira um jardim.

 O seu quintal, que aparece em vários poemas seus, para ele é como espaço de superação dos limites e da humilhação, espaço de evasão, símbolo de saúde e de vida. O ambiente humano é caracterizado por tudo isto e é neste sentido que podemos reconhecer a capacidade de Jacob em trazer para a poesia o real quotidiano do homem citadino, quando não está no campo!

O quintal oferece ao poeta uma lição de vida multifacetada que ele transmite com objetividade e realismo. Trata-se assim de uma visão concreta do quintal descolorido pelas mazelas da vida, e não pela da abstração da Natureza. As metáforas complementam e enriquecem o seu espaço, dando-lhe vida, amenizando-lhe a dor!

O segundo quarteto

Tardes primaverais chegam assim...
Desvanecendo nossos dissabores
E nos dão esperanças e favores
A nos sorrir e a nos dizer que sim.

Certa vez William Shakespeare escreveu: “... plante seu jardim e decore sua alma, ao invés de esperar que alguém lhe traga flores. E você aprende que realmente pode suportar... que realmente é forte, e que pode ir muito mais longe depois de pensar que não se pode mais. E que realmente a vida tem valor e que você tem valor diante da vida!" Realmente os dissabores, as agruras do viver vão evaporando, sem que o percebamos! Certo é que a espera de cada um tem um tempo determinado ou indeterminado de ser. Tempo de amar, tempo de ser amado, tempo de perdoar ou de ser perdoado. Compreender esse tempo único de cada um é o grande desafio e mistério que se tem para vivermos em harmonia com nosso próprio ser e com o outro.

As escolhas fazem parte de nossas vidas diariamente. E conduzir essas escolhas com base na verdade, seja lá qual for a consequência, é sempre a melhor empreitada a ser enfrentada. Lendo Nietzsche, percebemos que ele costumava perguntar: "Você viveu sua vida? Ou foi vivido por ela? Escolheu-a, ou ela escolheu você? Amou-a ou a lamentou?”. E são nesses questionamentos que nos respaldamos, muitas vezes, mais ainda com a chegada de um final de ano, e fazemos as contas do que valeu e do que passou.

O primeiro terceto

Como essas tardes claras de esplendor,
Que um dia esquecemo-nos de notar,
Existem almas que só dão amor.

“A consciência de uma planta no meio do inverno não está voltada para o verão que passou, mas para a primavera que irá chegar. A planta não pensa nos dias que já foram, mas nos que virão. Se as plantas estão certas de que a primavera virá, por que nós – os humanos – não acreditamos que um dia seremos capazes de atingir tudo o que queríamos?”
Khalil Gibran  

Quando as nuvens parecerem pedras e flores, a terra será renovada por chuvas de primavera.

 E chega a primavera! É o despertar da natureza que sai de seu repouso de inverno e traz um renascer, uma renovação que invade a vida vegetal e animal. Para nós, humanos, também é um tempo de recarregar as energias, absorver a força da natureza, revigorar e rejuvenescer.

Povos antigos realizavam rituais a cada mudança de ciclo da natureza, ou seja, a cada mudança de estação. E os rituais de primavera eram valorizados por celebrarem a fertilidade, para marcar o início de um período de abundância e generosidade da Mãe Natureza.

último terceto

São essas almas as criaturas boas
Que só vieram ao mundo para amar
A vida sem amor de outras pessoas.

O final de mais um dia nos faz refletir o quanto passamos por tantas frustrações e estados de conflitos, sempre tentando achar o equilíbrio entre o desejo e a culpa. Pois são nesses dois polos afetivos que muitos se encontram reféns do próprio desamor, não se permitindo assim, viver e amar plenamente. Mas, nessas contas do que foi vivido, é bom também sentirmos a certeza de que amar valeu a pena, apesar de dores e dissabores. Mario Quintana já nos ensinava algo, mais ou menos assim, que “o amor só é lindo, quando encontramos alguém que nos transforme no melhor que podemos ser”.

Muitos se sentem mal com a vida sem amor. Acham-na nostálgicas e saudosas. Isso acontece devido a nossa capacidade de tentar sempre encontrar sentido para a nossa vida. Assim, busca-se incansavelmente esse fim: a felicidade. Mas muitos esquecem que não é um fim, é um meio. A felicidade é o caminho e o processo, não a chegada.

Conclusão

Na época do Equinócio da Primavera, povos antigos da Europa celebravam rituais em homenagem à deusa Eostar, também chamada Eostre, Ostera ou Esther - a deusa que presidia o nascimento da primavera e o despertar da vida na Terra. Não vou relatar aqui o Equinócio. Para os que têm interesse, basta pesquisar.

Alguns símbolos relacionados aos rituais do equinócio de primavera são as flores e os ovos decorados. Neste dia, povos antigos da Europa colhiam flores nos campos e as levavam para casa, pois acreditavam que as flores colhidas neste equinócio tinham potenciais mágicos e, por meio delas, seriam capazes de se conectarem à poderosa energia renovadora da Natureza.

Mesmo nos dias atuais, em meio a tanta tecnologia e conhecimento científico, podemos aproveitar a chegada da primavera para retomar nosso contato com a Mãe Natureza e atrair boas energias de renovação e prosperidade para a nossa vida. Embora atualmente seguidores de sabedorias diversas ainda pratiquem certos rituais ligados aos ciclos da natureza, não é preciso participar de um Sabá para celebrar esta passagem de ciclo tão simbólica.

Que tal aproveitar este período para atrair prosperidade e encher a sua vida de energia renovadora? Então aí vão algumas dicas para você fazer seu próprio ritual de primavera:

No Brasil, o equinócio de primavera ocorre geralmente no dia 22 de setembro, com a entrada do Sol no signo de Libra. Enfeite a casa com flores e frutas.

Então passe a fazer parte das “Almas Primaverais”!

Meu Deus! Quanta sabedoria num único soneto! Parabéns, poeta Jacob! Que seria da Literatura Brasileira sem seus versos?

Referências 

ALMEIDA, Guilherme de. Onda. In: AGUIAR, Vera. Poesia fora da estante. Porto Alegre: Projeto, 1995.
BARBOSA, S. R. da C. S. Qualidade de vida e suas metáforas: uma reflexão sócioambiental. 1996. 326 f. Tese (Doutorado em Ciências Sociais) – Instituto de reservatório da UHE Sérgio Motta no município de Presidente Epitácio/SP. 2003. 
CAPARELLI, Sérgio. A primavera endoideceu. In: AGUIAR, Vera. Poesia fora da estante. Porto Alegre: Projeto, 1995. 
DAYRELL, Juarez. A escola como espaço sócio-cultural. In: DAYRELL, J. (Org.) 
Múltiplos olhares: sobre educação e cultura. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1996. 
QUINTANA, Mário. Canção de nuvem e vento. Retirado do sitehttp://www.focando.jor.br/2006/12/12/entre-nuvens/. Acesso em 10 de jun. 2008.
MACEDO, Helder - "Cesário Verde, o bucolista do realismo" / Helder Macedo. In: Revista Colóquio/Letras. Ensaio, n.º 93, Set. 1986, p. 20-28.
MOURÃO-FERREIRA, David
"Sobre o decassílabo e o alexandrino na poesia de Cesário Verde" / David Mourão-Ferreira. In: Revista Colóquio/Letras. Ensaio, n.º 93, Set. 1986, p. 74-81.
NEVES, Libério. O pássaro em vertical. In: AGUIAR, Vera. Poesia fora da estante. Porto Alegre: Projeto, 1995. 
Dicionário Morfológico da Língua Portuguesa, por Evaldo Heckler, Sevaldo Back e Egon Ricardo Massing - São Leopoldo, UNISINOS, 1984.





POESIA DE BOLSO
ÍNDICE


Sonetos

7/ Desenho (Comentado)
8/ Sonho de Papel (Comentado)
9/ Florzinha (Comentado)
10/ Impulsão (Comentado)
11/ Bolhas de Sabão (Comentado)
12/ Fim de Jornada (Comentado)
13/ Amor -Próprio Ferido
14/ A Dança dos Pares Perdidos
15/ Afronta Impiedosa (Comentado)
16/ Almas Primaverais
17/ Casinha de Boneca
18/ Nós Somos Para Sempre
19/ Sonhando (Comentado)
20/ Faltas e Demoras
21/ Velho Órfão
22/ Silêncio em Casa
23/ Quanto Tempo nos Resta? (Comentado)
24/ Enigma
25/ Despercebimento
26/ Porta-retratos
27/ Roseiras Dolorosas
28/ Sonho Quebrado
29/ O Espelho
30/ O Palhaço (Comentado)
31/ Varal de Luzes
32/ História sem Final
33/ O Beijo de Jesus (Comentado)
34/ Musa do Ano Novo
35/ Natal dos meus Sonhos (Comentado)
36/ O Ano Bom do Bom Fantasma
37/ Domingo em Casa
38/39/ Elogio à dor do Desamor I e II
40/ Almas sem Flores
41/ Crença
42/ Além da Porta
43/ Alminha
44/ Carretéis
45/ Os Afogados
46/ Jardim sem Flores (Comentado)
47/ Mudança
48/ O Vira-lata (Comentado)
49/ Revelação
50/ O Vendedor de Bonequinhos
51/ Repouso no Sítio (Comentado)
52/ Tédio
53/ Crepúsculo de uma Árvore
54/ Noite Fria
55/ Oração do Descrente
56/ Não Despertes Sonhos Nos Meus Dias
57/ Falsidade
58/ Renascer
59/ Poodle
60/ Prisioneiro
61/ A Mãe e a Roseira
62/ A Saudade Sempre Pede Mais
63/ Sublimação (Comentado)
64/ Solidão (Comentado)
65/ Esperança Morta
66/ A Aurora da Velhice
67/ Mãos nos Bolsos
68/ Figurinhas
69/ História Boa
70/ Soneto para o Poeta Triste
71/ Minha Senhora
72/ Soneto de Natal
73/ O Pai e a Terra
74/ Minha Mãezinha
75/ Brinquedo
76/ Alegoria
77/ Almas Raras
78/ Angústia
79/ As Formigas
80/ Velhice Feliz
81/ Na Poltrona
82/ Oração do Dia dos Pais
83/ Ócio e Solidão
84/ A Prece do Capuchinho
85/ Último Delírio
86/ Canção do Rio
87/ O Verso Único
88/ Páscoa
89/ De Volta aos Quintais
90/ Amada Sombra que Persigo
91/ Eu Creio Sim!
92/ Coelhinho da Páscoa
93 Restou uma Poesia
94/ Meu Presépio

Quadra
95/ Veritas (Comentado)

Sextilhas
96/ Delírios de Maio (Comentado)
100/101/ Passeio na Cidade
102/ Natal na Rua da Miséria (Comentado)
104/105/ Uma Temporada na Roça
106/ O Fantasma que mora em meu Sofá
108/ Filhos de Minas





ESPECIAIS JOSÉ ANTONIO JACOB

PPS Clique no seu Poeta
(Magnífica declamação do artista português José Bento)

O Sono de Pensar
(Poema em versos livres)

Site Cenário de Sentimentos

AVSPE José Antonio Jacob
Homenagem da poetisa Tere Penhabe
(Acróstico Poético)
(Apresentação de Maria Granzoto da Silva)

Resposta ao Passado
(Especial ArtCulturalBrasil)

Mémória de Bibelô
(especial ArtCulturalBrasil)

Além da Porta
(Vídeo de Dorival Campanelle)

Noite no Bar


VISITE


Voltar
ÍNDICE