Pág. 43 Alminha (comentado)


UMA CIDADE SEM MEMÓRIA CULTURAL É UMA CIDADE SEM FUTURO HISTÓRICO

Comentário
Professora de Literatura Maria Granzoto da Silva
Arapongas - Paraná
granzoto@globo.com


Alminha
José Antonio Jacob


Desperto, mal lá fora o sol se aflora,
E, ainda zonzo de sono e de esperança,
Deixo pular pela janela afora
A minha inquieta alminha de criança.

Que alegre corre, rodopia e trança,
Entre a florada que a manhã decora
E feito folha solta vai embora,
Seguindo a brisa que na tarde avança.

Não se descuide minha alminha boa,
Que vai anoitecer, (a tarde é breve!)
O sol logo declina, o tempo voa!...

E, antes que o dia ao alto se deforme,
Ela retorna dócil, meiga e leve
E se acomoda no meu colo e dorme.
 


Introdução

Usar dos adjetivos para as composições poéticas de José Antonio Jacob é, no mínimo, perda de tempo, além de nos tornarmos repetitivos, em que pese a riqueza vocabular da língua portuguesa.

O mesmo aplica-se à sua fonte inesgotável de inspiração e variáveis temáticas.

No entanto, este poema em especial, já partir do título, invade e permeia o nosso âmago de maneira indescritível. Cenários infinitos se nos apresentam, como num filme, se não considerarmos chula a comparação.

 O título

“Alminha”! Quantas interpretações oferece ao leitor que lê e degusta a palavra... Alminha de anjinho de serena fragilidade. Quem sabe uma sutil referência à cacofonia de Camões em “Alma minha...”? Certamente não sentimos o tom jocoso neste diminutivo. O homem é o único animal que cria, que transforma, que evolui. Como ele evolui, a sua maneira de se comunicar com os outros homens também evolui. As palavras vão também evoluindo. Criam-se expressões novas, usam-se velhas expressões, mas com novas significações, modifica-se a grafia das palavras. Junções, reinvenções... Que o diga Guimarães Rosa!

Como a linguagem funciona por analogias (semelhança entre coisas diferentes) ela cria, interpreta e decifra significações.

É na linguagem que a significação se perfaz. Se o homem é a língua que fala é todo ele que se coloca na linguagem. As frases valem pela intenção do falante, pelo que ele quis destacar e realçar, pelo contexto da situação. (WALDECK, S. P. e SOUZA, Luís de)

A linguagem é conotativa, onde a pluralidade de sentido das coisas faz parte de sua própria existência
Saussure já dizia que a característica da fala é a liberdade de combinações.

Marilene Chauí diz em seu livro que a linguagem nasce das emoções, particularmente do grito (medo, surpresa, compaixão) e do riso (prazer, bem estar, felicidade). E mais adiante: Não é a fome ou a sede, mas o amor ou o ódio, a piedade, a cólera, que aos primeiros homens lhe arrancaram as primeiras vozes.

E é nesse momento de explosão que o homem utiliza os diminutivos para poder expressar melhor as suas emoções e as suas intenções de modo espontâneo, impulsivo e não apenas utilizá-lo como diminuição de tamanho.

Portanto, “Alminha “denota sentimentalismo, carinho ou cuidado com algo ou com a outra pessoa envolvida na comunicação.

Primeiro quarteto

Desperto, mal lá fora o sol se aflora,
E, ainda zonzo de sono e de esperança,
Deixo pular pela janela afora
A minha inquieta alminha de criança.

Meu Deus! Quanta magia na escolha dos vocábulos! Despertar tem uma conotação diferente de acordar. “mal lá fora”, significando nem bem. E o sol não nasce! Ele aflora! Emerge, brota tal qual uma plantinha. Transmite a idéia de ânimo, desentorpece! A vida existe! Que metáfora tão bem construída! E aí vem a antítese: eu não sou o sol que aflora porque acordo, porque estou estonteado, atordoado não só no aspecto físico, mas também no sentimental. Ah, essa esperança incerta! Então a alminha salta do ser e sai pululante em busca daquela sonhada esperança. Ë manhã de sol. É cedo, mas o céu está iluminado pelo sol. É possível ver a tudo e a todos!

Segundo quarteto

Que alegre corre, rodopia e trança,
Por entre as flores que a manhã decora
E feito folha solta vai embora
Seguindo a brisa que na tarde avança.

Quanta vivacidade e satisfação causa essa busca matinal em zigue-zague entre as flores que enfeitam o desejo, a expectativa desse encontro! Espalha-se a esmo embalado pela brisa que a tarde embala e envolve. A manhã já se foi. Agora veio a tarde. A alminha está na segunda etapa de sua busca.

Primeiro terceto

Não se descuide minha alminha boa,
Que vai anoitecer, (a tarde é breve!)
O sol logo declina, o tempo voa!...

Aqui fica clara a intencionalidade do poeta em dar um prolongamento à varredura da brisa e ao dar asas ao tempo: ao usar as reticências, uma vez que o segundo verso não é pontuado. A brisa não cessa de fazer sua ação, ela a continua – empurra o sol... Intrinsicamente, a volta para casa deverá ocorrer. Por isso é preciso estar atento, pois a escuridão se aproxima. E a terceira etapa será noite e não combina com o tão sonhado encontro. Quanta polissemia semântica contida nos parênteses e nesse ponto de exclamação! Algemas que fecham a passagem, o ir além do pretendido.

Último terceto

E, antes que o dia ao alto se deforme,
Ela retorna dócil, meiga e leve
E se acomoda no meu colo e dorme.

E então fecha-se o ciclo com a chegada do ocaso. A noite virá, rápida. É a terceira e última etapa. Mas a esperança ainda não encontrada traz a docilidade e reforça que o embate deverá continuar. É necessário acreditar, renovar as energias, adormecendo. Enquanto houver vida, enquanto houver dia de sol, a esperança poderá ser encontrada.

Conclusão

Do belo poema fica um dos significados da existência humana: o sonho, a esperança de ser uma “alminha” que enfrenta as fatalidades que se lhe aparecem. O revés é possível porque a esperança é o nutriente. E ela não se encontra nas falsas ilusões que tantas vezes criamos para fugir da dor. Não se encontra nos caminhos de tentações que escolhemos apenas para satisfazer nossos prazeres mundanos.

A esperança não se encontra nos castelos de areia que construímos para esconder o nosso medo.A esperança não se encontra nas idéias que nos levam a crer que a vida termina com o cessar dos fluidos vitais do nosso físico. A esperança não está no tamanho das nossas pretensões. Ela é a “alminha” que tem a infância, a juventude e até mesmo a velhice para ser encontrada porque a manhã existe, a tarde existe e a noite existe. Qual será o tamanho da nossa alma?

A sua, poeta Jacob, certamente é imensurável!


Bibliografia

ALVES, Ieda Maria. Neologismo: Criação lexical. São Paulo: Ática, 1990.
BASILIO, Margarida. Formação e classes de palavras no português do Brasil. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2008.
________. Teoria lexical. 7. ed. São Paulo: Ática, 2003.
CAMARA JR., Joaquim Mattoso. Problemas de Linguística Descritiva. 19. ed. Petrópolis: Vozes, 2002.
CUNHA, Celso & CINTRA, Lindley. Nova gramática do português contemporâneo. 5.ed. Rio de Janeiro: Lexicon, 2008.
Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa. Versão 1.0. São Paulo, 2001.
EMILIO, Aline. Diminutivo X grau normal: um fenômeno estilístico no enfoque da abordagem variacionista. Revista da Abralin, São Paulo, v. 2, n. 1, jul. 2003. Disponível em http://www.abralin.org/revista/RV2N1/artigo1/RV2N1_art1.pdf Acesso em 06 mai 2010.
GENOUVIER, E.; PENTAR, J. Lingüística e o Ensino do Português. Coimbra: Almedina, 1973.
GUIRAUD, P. A Semântica. Rio de Janeiro: Bertrand, 1975.
LAPA, M.R. Estilística da Língua Portuguesa. São Paulo: Martins Fontes, 1982.
MOURA, H.M. de. Significação e contexto. Uma introdução a Questões de Semântica e Pragmática. Santa Catarina: Insular, 2000.
PROENÇA FILHO, Domício. A linguagem literária. 7. ed. São Paulo: Ática, 2005.
ROSA, M. C. A. P. Formação de nomes aumentativos: Estudo da Produtividade de alguns sufixos portugueses. Rio de Janeiro, UFRJ. (Mimeo), 1986.
SANTOS, Patrícia Botelho. Um estudo sobre a produtividade dos sufixos aumentativos. Disponível em http://www.filologia.org.br/vcnlf/anais%20v/civ6_18.htm. Acesso em 06 mai. 2010.
SOARES DA SILVA, Augusto. O mundo dos sentidos: polissemia, semântica e cognição. Coimbra: Almedina, 2006.
VALENTE, André. A produtividade lexical em diferentes linguagens. In: AZEREDO, José Carlos de (org.). Língua portuguesa em debate: conhecimento e ensino. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 2002.

UMA CIDADE SEM MEMÓRIA CULTURAL É UMA CIDADE SEM FUTURO HISTÓRICO

Poesia de Bolso - Ed. ArtCulturalBrasil/2011



POESIA DE BOLSO
ÍNDICE


Sonetos

7/ Desenho (Comentado)
8/ Sonho de Papel (Comentado)
9/ Florzinha (Comentado)
10/ Impulsão (Comentado)
11/ Bolhas de Sabão (Comentado)
12/ Fim de Jornada (Comentado)
13/ Amor -Próprio Ferido
14/ A Dança dos Pares Perdidos
15/ Afronta Impiedosa (Comentado)
16/ Almas Primaverais
17/ Casinha de Boneca
18/ Nós Somos Para Sempre
19/ Sonhando (Comentado)
20/ Faltas e Demoras
21/ Velho Órfão
22/ Silêncio em Casa
23/ Quanto Tempo nos Resta? (Comentado)
24/ Enigma
25/ Despercebimento
26/ Porta-retratos
27/ Roseiras Dolorosas
28/ Sonho Quebrado
29/ O Espelho
30/ O Palhaço (Comentado)
31/ Varal de Luzes
32/ História sem Final
33/ O Beijo de Jesus (Comentado)
34/ Musa do Ano Novo
35/ Natal dos meus Sonhos (Comentado)
36/ O Ano Bom do Bom Fantasma
37/ Domingo em Casa
38/39/ Elogio à dor do Desamor I e II
40/ Almas sem Flores
41/ Crença
42/ Além da Porta
43/ Alminha
44/ Carretéis
45/ Os Afogados
46/ Jardim sem Flores (Comentado)
47/ Mudança
48/ O Vira-lata (Comentado)
49/ Revelação
50/ O Vendedor de Bonequinhos
51/ Repouso no Sítio (Comentado)
52/ Tédio
53/ Crepúsculo de uma Árvore
54/ Noite Fria
55/ Oração do Descrente
56/ Não Despertes Sonhos Nos Meus Dias
57/ Falsidade
58/ Renascer
59/ Poodle
60/ Prisioneiro
61/ A Mãe e a Roseira
62/ A Saudade Sempre Pede Mais
63/ Sublimação (Comentado)
64/ Solidão (Comentado)
65/ Esperança Morta
66/ A Aurora da Velhice
67/ Mãos nos Bolsos
68/ Figurinhas
69/ História Boa
70/ Soneto para o Poeta Triste
71/ Minha Senhora
72/ Soneto de Natal
73/ O Pai e a Terra
74/ Minha Mãezinha
75/ Brinquedo
76/ Alegoria
77/ Almas Raras
78/ Angústia
79/ As Formigas
80/ Velhice Feliz
81/ Na Poltrona
82/ Oração do Dia dos Pais
83/ Ócio e Solidão
84/ A Prece do Capuchinho
85/ Último Delírio
86/ Canção do Rio
87/ O Verso Único
88/ Páscoa
89/ De Volta aos Quintais
90/ Amada Sombra que Persigo
91/ Eu Creio Sim!
92/ Coelhinho da Páscoa
93 Restou uma Poesia
94/ Meu Presépio

Quadra
95/ Veritas (Comentado)

Sextilhas
96/ Delírios de Maio (Comentado)
100/101/ Passeio na Cidade
102/ Natal na Rua da Miséria (Comentado)
104/105/ Uma Temporada na Roça
106/ O Fantasma que mora em meu Sofá
108/ Filhos de Minas


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