Pág. 30 O Palhaço (comentado)

Comentário
Professora de Literatura Maria Granzoto da Silva
Arapongas - Paraná
granzoto@globo.com

UMA CIDADE SEM MEMÓRIA CULTURAL É UMA CIDADE SEM FUTURO HISTÓRICO



"Se você tivesse acreditado na minha brincadeira de dizer verdades,
teria ouvido verdades que teimo em dizer brincando.
Falei muitas vezes como o palhaço,
mas nunca desacreditei da seriedade da platéia que sorria."

(Charles Chaplin)


O Palhaço
José Antonio Jacob

Ele se fantasiava de palhaço
E punha um rosto alegre de improviso,
Desmanchava a tristeza com um traço,
Depois riscava a boca num sorriso.

Então saía em busca de um abraço,
Soprando apito e balançando guizo,
E, entre uma cambalhota e um descompasso,
Ganhava o pouco pão que era preciso.

E ao seu redor juntava a meninada,
Velhos e jovens num sorriso largo,
E a gente em volta sempre a dar risada.

Sublime sina e doloroso encargo,
Trazer no rosto a vida adocicada
E ter no peito o coração amargo!
  



José Antonio Jacob, autor deste maravilhoso soneto intitulado “O Palhaço”, nos incita à retomada da prática da leitura de sonetos. Estranho poderá parecer aos leitores não-poetas que é necessário praticar a leitura para desvendar um soneto, para penetrar-lhe o âmago e dele retirar lições de posturas e sentimentos para a vida. Essa prática é de extrema importância! É necessário o leitor levar em conta o ritmo. Um dos traços do soneto é a musicalidade e o ritmo pertence ao mundo da música. A própria palavra ritmo, de origem latina rhythmus, quer dizer "movimento regular, cadência, ritmo". Assim, deverá o leitor tomar por ritmo a cadência, o que acaba por caracterizar o soneto como um poema com padrão rítmico especial. Comecemos pelo título: este não é um palhaço qualquer; é “O Palhaço”, pela definição do artigo “o” e pela redundância na substantivação dupla da palavra palhaço (classe gramatical (substantivo) e nome próprio (letra maiúscula). Aí já se pode deduzir a importância da temática!

"Ele se fantasiava de palhaço
E punha um rosto alegre de improviso,
Desmanchava a tristeza com um traço,
Depois riscava a boca num sorriso."

Em relação ao título, o primeiro quarteto é uma antítese, ou até mesmo um paradoxo (figuras de estilo). Relacionado com a antítese, o paradoxo é uma figura de pensamento que consiste na exposição contraditória de idéias. As expressões assim formuladas tornam-se proposições falsas, à luz do senso comum, mas que podem encerrar verdades do ponto de vista psicológico/poético. Simplificando, é uma afirmação ou opinião que à primeira vista parece ser contraditória, mas na realidade expressa uma verdade possível. Ele não é “O Palhaço”, mas vestia uma fantasia de palhaço. Ele não era detentor de um rosto naturalmente alegre; ele improvisava a alegria, mascarando a tristeza, e esboçava um sorriso; ele não ria, nem gargalhava! O sujeito-lírico, na sua angústia, nos revela a tentativa da busca pelo afeto. A tônica da primeira parte do soneto está em intercalar a realidade e a ilusão.

"Então saía em busca de um abraço,
Soprando apito e balançando guizo,
E, entre uma cambalhota e um descompasso,
Ganhava o pouco pão que era preciso."

De início, era ele quem buscava o público através do barulho que provocava pelo apito e pelo guizo, gerando aqui forte sinestesia (relaciona planos sensoriais diferentes: audição x visão x gustação), como a anunciar ao mundo a sua existência. E, por existir, precisava do alimento por tempo indefinido, conforme indica o uso das reticências. Neste segundo quarteto toda a tensão é demonstrada pelo querer sair do anonimato (guizo, apito) e mostrar toda a essência do ser humano: a busca pelo equilíbrio entre a certeza e incerteza (cambalhota x descompasso). A presença da antítese é freqüente, pois observamos que proximidade de palavras de sentido contrário que, através das figuras de linguagem com as metáforas, paradoxos, não só personalizam o sofrimento, mas o demonstram.

"E ao seu redor juntava a meninada,
Velhos e jovens de sorriso largo,
E a gente em volta sempre a dar risada."

Já na segunda parte, ou seja, no primeiro terceto, o verso reticente demonstra o aumento ou o prolongamento da reação causada pelos seus trejeitos, gerando ainda outras leituras plurissignificativas. Tautologia para alguns, pleonasmo para outros, “ao seu redor, juntava a meninada”, “velhos e jovens” e “em volta” são termos que reforçam a idéia de público, bem como a aprovação da platéia “de sorriso largo” e “sempre a dar risada”.

"Sublime sina e doloroso encargo,
Trazer no rosto a vida adocicada
E ter no peito o coração amargo!"

Observamos, outra vez, o paradoxo e a antítese, bem como a ambigüidade e o dualismo nos versos finais em que o poeta utiliza as figuras de linguagem com engenhosidade e habilidade. O verso exclamativo demonstra a perplexidade e o conflito, enquanto a revelação do sentimento é destacada com clareza quando o poeta usa um adjetivo (qualidade), um verbo (ação) e um conectivo (que adiciona e une o segundo verso ao último). Na conclusão do soneto, observamos a explicação da natureza contraditória da vida. Sem o dizer propriamente, o poeta traça uma estrutura paralela através de jogos de palavras, as quais constroem uma grande metáfora da essência do ser humano. Ele interliga o sofrimento da alma ao corpo, através dos signos que marcam a mescla dos sentidos que simboliza o sofrimento, a pretensa alegria que um palhaço poderia oferecer pelo papel desempenhado no palco da vida, expressos ainda pelas antíteses e metáforas (“Sublime sina e doloroso encargo”), retomando neste último terceto o jogo enigmático substantivando e adjetivando a trajetória da jornada desse artista da vida.

Nesse soneto temos um exemplo de como uma imagem conhecida – a do palhaço, no caso – ganha uma conotação que ultrapassa a idéia comum de fonte da alegria. O riso do palhaço, no soneto de José Antonio Jacob, é paradoxalmente o símbolo da tristeza. O palhaço aparece como símbolo do eu lírico atormentado, cujo desengonço é símbolo da ironia, da dor, de tormenta (ausência de paz), do nervosismo, da ansiedade, da agonia, haja vista a luta pela sobrevivência, enfim, de tudo o que, na nossa mente condicionada, é o oposto do motivo para rir.

 LEMBRAR É BOM

Soneto - Pequena composição poética composta de 14 versos, com número variável de sílabas, sendo o mais freqüente o decassílabo, e cujo último verso (dito chave de ouro) concentra em si a idéia principal do poema ou deve encerrá-lo de maneira a encantar ou surpreender o leitor. Pode ter a forma do soneto italiano (o mais praticado) ou do soneto inglês. (...) Fonte: Houaiss

Falar sobre soneto exige (como já exigiu) um tratado, tanta informação seria necessária para dizer tudo (ou quase tudo) a respeito desta forma perfeita de poema. Apesar de suas características fixas, há todo um arsenal de informações a respeito do soneto que não caberia numa apresentação como esta que estou tentando fazer, de simples informação. A origem do palhaço: personagem inspirado no bobo shakespeariano e influenciado pela comédia dell’arte italiana, que surgiu no século XVIII para subverter a apresentação dos equilibristas nos espetáculos do inglês Philip Astley, um dos fundadores do circo moderno, vem da antiga função que tinha o bobo da corte de fazer o Rei se divertir. O bobo da corte surgiu há mais de 2.500 anos antes de Cristo e de acordo com o Ministério dos palhaços foi durante a Dinastia do Faraó Dadkeri-Assi que o bobo da corte começou suas primeiras atividades como profissão.

A Comédia Del Arte, que surgiu na Europa na Itália no século XVI, acabou por utilizar o modelo do bobo da corte, para criar seus espetáculos. Máscaras divertidas e diferentes, roupas largas e sapatos engraçados foram as características mais marcantes das comédias produzidas por esses grupos de teatro. Além das típicas piadas criadas para divertir o público, com uma pitada de sarcasmo e até romantismo. A fusão entre o bobo da corte, os atores da Comédia Del Arte e o Circo, acabou dando origem ao palhaço que conhecemos hoje. Sua história é um misto de criatividade, evolução e mudanças. O termo Palhaço também é bastante utilizado para denegrir a imagem de alguma pessoa. Seja ela alheia ou não (NÃO SENDO ESTE O CASO DO SONETO EM APREÇO). É utilizado em situações onde este revela injustiças, agressões, brincadeiras de mau-gosto, deboches demasiados e/ou traumáticos, lições da vida e qualquer outra situação que provoque determinado sentimento no receptor.

Até o começo do século 19 o palhaço era um personagem típico do dia-a-dia. Por estar fora das regras da sociedade normal, o palhaço é capaz de subverter a ordem, e esta premissa é usada atualmente por muitos ativistas com o objetivo de demonstrar absurdos sociais. Ele é a encarnação do trágico na vida cotidiana; é o homem assumindo sua humanidade e sua fraqueza e, por isso, tornando-se cômico. Possui uma mesma essência: colocar em exposição à estupidez do ser humano, relativizando normas e verdades sociais.

Conclusão

Nunca imaginei que um único símbolo traduziria tantos significados, tantos sentimentos e faria emergir tantas ações diferentes. Talvez por isso alguns segredos sejam revelados, talvez por isso algumas palavras sejam tão carregadas de significados e confiança na figura do palhaço. Por ser um símbolo universal de momentos bons, uma figura alegre, sincera no que expressa, e cheia de uma inocência quase infantil, o palhaço abre portas para que nossos corações façam contato com o nosso mundo interior. Encontramos no nariz vermelho um livro com páginas em branco, prontas para serem escritas com os sentimentos de quem cruza seu caminho. Dizem que o nariz do palhaço representa os olhos, e os olhos representam a alma. O palhaço é o que mostra o erro, a confusão, o tropeço em forma de homem. Também é a poesia de ser frágil, é a delicadeza de se tornar risível e visível, é a incrível coragem de assumir o próprio ridículo. Quando o palhaço está presente, sabemos que podemos ser fortes, fracos, bonitos, feios, corajosos, medrosos... Podemos expor nossos sentimentos com a verdade que nossos olhos pedem, pois ali está a figura que incorpora a possibilidade da fragilidade ou da fortaleza. Deixemo-nos ser quem somos, pois o palhaço se deixa ser quem ele é.

Esquecemos tantas e tantas vezes de viver o que acontece no momento, que não vemos o que está diante de nós. Todos nós pensamos que teremos sempre a nossa disposição um futuro que ainda não sabemos qual será... E enquanto isso o tempo passa, e a risada que poderíamos dar agora, adiamos para quando estivermos "melhores". Nesse tempo que esperamos, as sementes germinam, o céu muda conforme as estações, a roupa desbota... E o sorriso é adiado. Talvez "ficar mais um pouco" seja a permissão que temos para nos dedicar ao que realmente queremos naquele momento. Pensar no futuro é permitido quando o presente é vivido plena e intensamente. Sem medos!

Finalizo com uma frase do diário de Jules Renard: “Só se tem o direito de rir das lágrimas depois que já se chorou”.

Maria Granzoto da Silva
 Academia de Letras Artes e Ciências Centro-Norte do Paraná e Professora Universitária.

Bibliografia pesquisada

BAKHTIN, M. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. Hucitec-UnB, Brasília, 1987. COXE, A. H. "No começo era o picadeiro", O Correio da Unesco, Paris, nº 3, ano 16, mar., 1988. GASSNER, J. Mestres do teatro. Perspectiva, São Paulo, 1974. MAGNANI, J. G. C. Festa no pedaço: cultura popular e lazer na cidade. Brasiliense, São Paulo, 1984. RUIZ, R. Hoje tem espetáculo? As origens do circo no Brasil. INACEN, MINC, Rio de Janeiro, 1987
TRANCOSO, BERNARDO. A história do soneto.

WIKIPÉDIA.org/2007



Poesia de Bolso - Ed. ArtCulturalBrasil/2011



POESIA DE BOLSO
ÍNDICE


Sonetos

7/ Desenho (Comentado)
8/ Sonho de Papel (Comentado)
9/ Florzinha (Comentado)
10/ Impulsão (Comentado)
11/ Bolhas de Sabão (Comentado)
12/ Fim de Jornada (Comentado)
13/ Amor -Próprio Ferido
14/ A Dança dos Pares Perdidos
15/ Afronta Impiedosa (Comentado)
16/ Almas Primaverais
17/ Casinha de Boneca
18/ Nós Somos Para Sempre
19/ Sonhando (Comentado)
20/ Faltas e Demoras
21/ Velho Órfão
22/ Silêncio em Casa
23/ Quanto Tempo nos Resta? (Comentado)
24/ Enigma
25/ Despercebimento
26/ Porta-retratos
27/ Roseiras Dolorosas
28/ Sonho Quebrado
29/ O Espelho
30/ O Palhaço (Comentado)
31/ Varal de Luzes
32/ História sem Final
33/ O Beijo de Jesus (Comentado)
34/ Musa do Ano Novo
35/ Natal dos meus Sonhos (Comentado)
36/ O Ano Bom do Bom Fantasma
37/ Domingo em Casa
38/39/ Elogio à dor do Desamor I e II
40/ Almas sem Flores
41/ Crença
42/ Além da Porta
43/ Alminha
44/ Carretéis
45/ Os Afogados
46/ Jardim sem Flores (Comentado)
47/ Mudança
48/ O Vira-lata (Comentado)
49/ Revelação
50/ O Vendedor de Bonequinhos
51/ Repouso no Sítio (Comentado)
52/ Tédio
53/ Crepúsculo de uma Árvore
54/ Noite Fria
55/ Oração do Descrente
56/ Não Despertes Sonhos Nos Meus Dias
57/ Falsidade
58/ Renascer
59/ Poodle
60/ Prisioneiro
61/ A Mãe e a Roseira
62/ A Saudade Sempre Pede Mais
63/ Sublimação (Comentado)
64/ Solidão (Comentado)
65/ Esperança Morta
66/ A Aurora da Velhice
67/ Mãos nos Bolsos
68/ Figurinhas
69/ História Boa
70/ Soneto para o Poeta Triste
71/ Minha Senhora
72/ Soneto de Natal
73/ O Pai e a Terra
74/ Minha Mãezinha
75/ Brinquedo
76/ Alegoria
77/ Almas Raras
78/ Angústia
79/ As Formigas
80/ Velhice Feliz
81/ Na Poltrona
82/ Oração do Dia dos Pais
83/ Ócio e Solidão
84/ A Prece do Capuchinho
85/ Último Delírio
86/ Canção do Rio
87/ O Verso Único
88/ Páscoa
89/ De Volta aos Quintais
90/ Amada Sombra que Persigo
91/ Eu Creio Sim!
92/ Coelhinho da Páscoa
93 Restou uma Poesia
94/ Meu Presépio

Quadra
95/ Veritas (Comentado)

Sextilhas
96/ Delírios de Maio (Comentado)
100/101/ Passeio na Cidade
102/ Natal na Rua da Miséria (Comentado)
104/105/ Uma Temporada na Roça
106/ O Fantasma que mora em meu Sofá
108/ Filhos de Minas


ESPECIAIS JOSÉ ANTONIO JACOB

PPS Clique no seu Poeta
(Magnífica declamação do artista português José Bento)

O Sono de Pensar
(Poema em versos livres)

Site Cenário de Sentimentos

AVSPE José Antonio Jacob
Homenagem da poetisa Tere Penhabe
(Acróstico Poético)
(Apresentação de Maria Granzoto da Silva)

Resposta ao Passado
(Especial ArtCulturalBrasil)

Mémória de Bibelô
(especial ArtCulturalBrasil)

Além da Porta
(Vídeo de Dorival Campanelle)

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