15 DE FEVEREIRO DE 2012
A DANÇA DOS PARES PERDIDOS
(José Antonio Jacob)
Dissolve-se a família e eu não sabia
Que ausências aparecem sem querer.
A mesa vai ficando mais vazia
Até a nossa casa emudecer.
O mundo é isso mesmo! Eu me diria...
O mundo é isso mesmo! Eu me diria...
Escuto a Voz que insiste em me dizer:
- A vida traz momentos de alegria,
Se eles se vão, alguém tem que sofrer!
Entro no quarto escuro e não confio
Entro no quarto escuro e não confio
No beijo eterno da mulher amada
E o meu abraço abraça outro vazio...
Eu fiquei só na dança inacabada,
Eu fiquei só na dança inacabada,
Perdi meu par na dança e desconfio
Que eu morri e ninguém me disse nada.
VELHO ÓRFÃO
VELHO ÓRFÃO
(José Antonio Jacob)
Desde cedo esperei o que não vinha
Desde cedo esperei o que não vinha
E a minha vida foi perdendo o prazo:
Fui vendo a minha sombra mais sozinha
E o meu destino cada vez mais raso.
E, enquanto andei do quarto até a cozinha,
E, enquanto andei do quarto até a cozinha,
Pesou-me o passo e me causou atraso,
Desfolharam-se os dias na folhinha
E o tempo foi morrendo em meu ocaso.
Súbitos longos anos tão estreitos,
Súbitos longos anos tão estreitos,
Sinto tê-los perdidos sem proveitos
E sem proveitos não me presto mais.
Eu sou aquele velho desolado,
Eu sou aquele velho desolado,
Que vive a andar atrás do seu passado
Feito a criança órfã que procura os pais.
ALMINHA
ALMINHA
(José Antonio Jacob)
Desperto, mal lá fora o sol se aflora,
Desperto, mal lá fora o sol se aflora,
E, ainda zonzo de sono e de esperança,
Deixo pular pela janela afora
A minha inquieta alminha de criança.
Que alegre corre, rodopia e trança,
Que alegre corre, rodopia e trança,
Entre a florada que a manhã decora
E feito folha solta vai embora,
Seguindo a brisa que na tarde avança.
Não se descuide minha alminha boa,
Não se descuide minha alminha boa,
Que vai anoitecer, (a tarde é breve!)
O sol logo declina, o tempo voa!...
E, antes que o dia ao alto se deforme,
E, antes que o dia ao alto se deforme,
Ela retorna dócil, meiga, leve
E se acomoda no meu colo e dorme.
CASINHA DE BONECA
CASINHA DE BONECA
(José Antonio Jacob)
Um dia ela guardou os seus segredos,
Um dia ela guardou os seus segredos,
Pois que sentiu que o amor ao longe vinha,
Trancou no quarto todos seus brinquedos
E o sonho da boneca e da casinha.
E foi buscar aquilo que não tinha
E foi buscar aquilo que não tinha
No alegre faz de conta dos seus dedos,
Contou tristezas e chorou sozinha,
Depois sorriu das mágoas e dos medos.
Passou o tempo e ela seguiu a sina.
Passou o tempo e ela seguiu a sina.
E assim, com a decência que ilumina,
Também andou por onde o mal caminha.
Quanta ternura tem essa velhinha,
Quanta ternura tem essa velhinha,
Que fica no seu quarto de menina,
Brincando de boneca e de casinha!
CRENÇA
CRENÇA
(José Antonio Jacob)
Quando firmava o azul e o sol abria
Quando firmava o azul e o sol abria
Ao dia a sua bem-aventurança,
O homem bom repartia à vizinhança
Toda espécie de estima que sentia.
E ele acordava cheio de esperança
E ele acordava cheio de esperança
De vir o dia - após um novo dia -
Só para dar-lhe apreço e cortesia
Na sua ingênua crença de confiança.
Depois curvava a fé que lhe convinha
Depois curvava a fé que lhe convinha
À soleira da porta e de tardinha
Contava as horas, crédulo a sorrir.
E a noite o recolhia nesse afã
E a noite o recolhia nesse afã
De estar sempre esperando esse Amanhã
E sempre esse Amanhã tardando a vir...
ESPERANÇA MORTA
ESPERANÇA MORTA
(José Antonio Jacob)
Minha ruazinha triste está tão doente
Minha ruazinha triste está tão doente
E as casas de janelas apagadas,
O meu jardim morreu na minha frente
E ninguém passa mais nessas calçadas.
Ah, ruazinha... (quem a conhece sente)
Ah, ruazinha... (quem a conhece sente)
Suas cores estão mais desbotadas!...
E para mais piorar a dor na gente
As nuvens lá no céu estão paradas.
Não posso mais sonhar sua lembrança
Não posso mais sonhar sua lembrança
E ver, lá fora, pela minha porta,
Passar alguém feliz feito criança.
Ao acordar eu vejo, desolado,
Ao acordar eu vejo, desolado,
Que é uma esperança que amanhece morta
E fica o dia inteiro do meu lado...
AFRONTA IMPIEDOSA
AFRONTA IMPIEDOSA
(José Antonio Jacob)
Em cada rua há um vendedor de flores
Em cada rua há um vendedor de flores
E anda distante o Dia de Finados;
Casais se beijam murmurando amores,
Também não é Dia dos Namorados.
Essa cidade tem muros dourados,
Essa cidade tem muros dourados,
Por onde passam brisas sem rumores
E nos salões de imperiais sobrados
Divertem-se os fidalgos sem pudores.
E o céu é tão azul que dói na vista,
E o céu é tão azul que dói na vista,
O mar parece capa de revista
E ao longe nos acena um iate à vela...
E o que mais nos afronta e desiguala
E o que mais nos afronta e desiguala
É o luxo se exibindo na novela
E essa pobreza muda em nossa sala.
QUANTO TEMPO NOS RESTA?
QUANTO TEMPO NOS RESTA?
(José Antonio Jacob)
Nossa vida é uma história mal contada,
Nossa vida é uma história mal contada,
Uma vaga novela incompreendida...
Para alguns é um feliz conto de fada,
Para outros uma lenda indefinida.
Vivemos de alvorada em alvorada,
Vivemos de alvorada em alvorada,
(Que tempo ainda nos resta nessa vida?)
A dar sorrisos largos na chegada
E a lamentar a perda na partida.
Que bom matar o tempo numa rede,
Que bom matar o tempo numa rede,
Se ele nos desse a viva eternidade
De um quadro pendurado na parede...
E, enquanto a vida passa e o tempo avança,
E, enquanto a vida passa e o tempo avança,
Quanta tristeza vai numa saudade,
Quanta alegria vem numa esperança!
DESENHO
DESENHO
(José Antonio Jacob)
A nuvenzinha que no céu passou,
A nuvenzinha que no céu passou,
Lépida e alegre, sem nenhum rumor,
Num pé de vento foi e não voltou:
Era uma folha num jardim sem flor...
Virando a folha um sol no céu brilhou
Virando a folha um sol no céu brilhou
E fez surgir um dia de esplendor;
Veio uma sombra e o dia se apagou:
Era um desenho num papel sem cor...
Por que será que meu rabisco leve,
Por que será que meu rabisco leve,
Que traço em suavidade colorida,
Esvoaça fácil feito um sonho breve?
E tudo o que eu amei foi despedida...
E tudo o que eu amei foi despedida...
E por que o meu destino não escreve
Uma história feliz na minha vida?
DESPERCEBIMENTO
DESPERCEBIMENTO
(José Antonio Jacob)
Dentro dos seus sapatos desbotados
Dentro dos seus sapatos desbotados
Ele saiu de casa e foi distante,
E foi além da conta, andou bastante,
Até achar caminhos nunca achados.
Esse homem, descontente e itinerante,
Esse homem, descontente e itinerante,
Não disse adeus quando se foi aos lados,
Deixou atrás de si rostos molhados
E colocou a Sorte vida adiante.
Depois voltou trazendo na memória
Depois voltou trazendo na memória
O que o Mundo não lhe pode servir.
E ao retornar ao lar: - Ó Sorte inglória!
Nenhum sorriso amado viu sorrir...
Nenhum sorriso amado viu sorrir...
Chamou, cantou, chorou, contou história,
Mas ninguém quis saber e nem ouvir.
ROSEIRAS DOLOROSAS
ROSEIRAS DOLOROSAS
(José Antonio Jacob)
Estou sozinho em meu jardim sem cores
Estou sozinho em meu jardim sem cores
E, ainda que eu tenha mágoas bem guardadas,
Cuido dessas roseiras desmaiadas
Que em meu canteiro nunca abriram flores.
Tais quais receosas almas delicadas
Tais quais receosas almas delicadas
Elas se encolhem sobre seus temores
E abortam seus rebentos nas ramadas,
Enquanto vão morrendo em suas dores.
Quantas almas, que por serem assim,
Quantas almas, que por serem assim,
Como essas tristes plantas no jardim,
Calam-se a olhar o nada, tão descrentes...
Feito as minhas roseiras dolorosas
Feito as minhas roseiras dolorosas
Que só olham para a vida, indiferentes,
E não me dão espinhos e nem rosas.
JARDIM SEM FLORES
JARDIM SEM FLORES
(José Antonio Jacob)
Para acalmar a febre do meu rosto
Para acalmar a febre do meu rosto
Encosto a fronte na vidraça fria
E fico a olhar a rua tão vazia,
Pois tudo está sem graça no sol-posto.
Lá fora o vento passa e empurra o dia,
Lá fora o vento passa e empurra o dia,
Que vai embora como o rei deposto,
Se para alguns deixou muita alegria
A tantos outros só deixou desgosto.
E, enquanto a tarde inclina-se a este poente,
E, enquanto a tarde inclina-se a este poente,
Eu desço para o meu jardim sem cores
Que está (como eu estou) triste e descrente.
E juntos soluçamos nossas dores:
E juntos soluçamos nossas dores:
Eu por estar magoado, velho e doente
E o meu jardim por ter perdido as flores.
O BEIJO DE JESUS
O BEIJO DE JESUS
(José Antonio Jacob)
Eu era criança, mas já percebia
Eu era criança, mas já percebia
O pouco pão que havia em nossa mesa
E a aparência acanhada da pobreza
Que tinha a nossa casa tão vazia.
De noite, antes do sono, uma certeza:
De noite, antes do sono, uma certeza:
A minha mãe rezava a Ave-Maria!
E ao terminar a prece eu sempre via
No seu olhar uma esperança acesa.
Após a reza desligava a luz,
Após a reza desligava a luz,
Beijava o crucifixo e a fé era tanta
Que adormecia perto de Jesus.
Depois que ela dormia (isso que encanta)
Depois que ela dormia (isso que encanta)
Nosso Senhor descia ali da cruz
Para beijar a sua face santa...
FLORZINHA
FLORZINHA
(José Antonio Jacob)
Eu andava contente até então,
Eu andava contente até então,
Nem de longe pensava em desamor.
Eis que de um ramo despencou-se ao chão
A pálida corola de uma flor.
E quem tocou de dor sem compaixão
E quem tocou de dor sem compaixão
Essa frágil florinha já sem cor:
A leve brisa em crise de tufão
Ou a inquieta avezinha sem amor?
Então, pequena flor é bem assim?
Então, pequena flor é bem assim?
Enquanto o tempo mais afasta o Outrora
O dia nos declina para o fim.
Cada encontro é uma nova despedida...
Cada encontro é uma nova despedida...
E o pesar é a moldura que decora
A paisagem feliz da nossa vida.
ELOGIO À DOR DO DESAMOR
ELOGIO À DOR DO DESAMOR
(José Antonio Jacob)
I
Ainda que até o amor você me roube,
I
Ainda que até o amor você me roube,
(pode roubar-me sem abrir a porta)
Rogarei que outro amor maior me arroube,
Pois só o amor um coração conforta.
Ora, que triste, a noite é quase morta
Ora, que triste, a noite é quase morta
E em seus lábios meu beijo ainda não coube,
Eu amo a dor e a dor não me suporta,
Porque eu já morri e você não soube.
O meu amor que o seu amor espalma,
O meu amor que o seu amor espalma,
Em troca de ter-me arrebatado a alma,
Haverá de avivar as suas dores.
Que vibrem no seu peito outros amores!
Que vibrem no seu peito outros amores!
Você feriu-me a vida e dou-lhe flores...
E morro sem você na noite calma.
II
Que doce olhar... E a vida é tão pequena!
II
Que doce olhar... E a vida é tão pequena!
A vida é triste sem seu doce olhar...
Para mim seu olhar é uma novena
Que acompanho de longe sem rezar.
Amo-a tanto e ela sabe que me amar
Amo-a tanto e ela sabe que me amar
É dor, tristeza, mágoa, perda e pena,
Por isto ela não me ama e me condena
A entrar no céu e não poder ficar.
Que coisa triste, que desesperança!
Que coisa triste, que desesperança!
Ponho em seus olhos meu olhar que clama
E ela me olha inocente feito criança.
Adeus! (meu breve adeus é o de quem ama)
Adeus! (meu breve adeus é o de quem ama)
Deixo-lhe meu sorriso de lembrança,



A cultura deve ser preservada a todo o custo. Por isso peço desculpa por vir ocupar este espaço que é seu para, juntos, divulgarmos os IX JOGOS FLORAIS DE AVIS, cujo regulamento já se encontra disponível em www.aca.com.sapo.pt
ResponderExcluirObrigado.
Fernando Máximo/Avis
É SEMPRE MOTIVO DE MUITA ALEGRIA COMENTAR SEUS SONETOS MESTRE, PARABÉNS SEMPRE.
ResponderExcluirAmado,postei um comentario sobre seu trabalho,me confundiu com outra pessoa.Meu nome e SANDRA.Estou na lista de seus amigos do msn.
ResponderExcluirEstimada Sandra,
Excluiragradeço sua mensagem e solicito deixar aqui seu e-mail.
Com votos de saúde e paz
José Antonio Jacob
joseantoniojacob@gmail.com
Caro Poeta Fernando Máximo
ResponderExcluirSua presença na minha pagina deixa-me honrado e feliz.
Desejo grande sucesso nos IX JOGOS FLORAIS DE AVIS.
Abraços a todos amigos de Avis.
José Antonio Jacob
Caro Vantuilo
ResponderExcluirAgradeço suas palavras de incentivo e também a reserva antecipada do livro "Poesia de Bolso" que você fez na ArtCulturalBrasil.
É bom saber que temos amigos que nos estimulam espontâneamente.
Forte e fraternal abraço
José Antonio Jacob
Lindas texto.s
ResponderExcluirAdorei o blog. e deixo um grande Abraço!
Prezado José Antonio,
ResponderExcluirParabéns pelo seu blog, tão bem elaborado; parabéns por seus sonetos, tão bem montados; parabéns pelas suas "chaves de ouro", tão impactantes, parabéns pela importante e preciosa divulgação deste gênero poético tão desprezado pela mídia mas, principalmente, parabéns pelo maior troféu que um poeta poderia receber - uma carta elogiosa e tão significativa como a do mestre Vasco de Castro Lima - valor maior que qualquer medalha de ouro ou de qualquer outro tipo de honraria. Como pequeno sonetista mas grande defensor deste estilo diferente e único de poesia, infelizmente, até hoje, após mais de 700 anos, os intelectuais só sabem dizer que saiu de moda e não alcançam seu significado poético, um perfeito quebra cabeça que puxa pelo raciocínio e não uma montagem fácil de versos duvidosos que mais parecem prosa esquartejada, totalmente insossos. Hoje, pela massificante facilidade em tudo, todos são cantores, compositores, pintores e, principalmente, poetas – cujos segmentos caem vertiginosamente, a cada dia, no precipício da vulgaridade. Aos críticos do soneto, há que se perguntar – por que um alpinista não sobe a montanha pela trilha e procura sempre o lado mais difícil? – Obviamente, elementar para quem não o classifica como um “animal bravio” como dizia Gonçalves Crespo. Por isto digo numa trova - "o que se faz com carinho / e aroma que se espalha / perfuma qualquer caminho / e vence qualquer batalha" . Continue brindando-nos com a verdadeira poesia e que os céus o iluminem cada vez mais.
Um abraço,
João Roberto Gullino,
Petrópolis, RJ
Em tempo : releve não ter colocado o comentário em seu blog porque, na minha idade, tudo é muito confuso e difícil de entender este linguajar “bloguês”.
Meu prezado João Roberto Gullino,
ExcluirFeliz e honrado por suas palavras a meus pequenos versos, agradeço –lhe o incentivo e envio saudações de amizade, com votos de saúde e paz.
Gostei da sua trova e das suas boas palavras amistosas, que denotam especial carinho ao soneto: “este resistente gênero poético venerado há mais de de 700 anos, entre glórias e críticas, e que ainda permanece com sua forma original intacta, mesmo tendo sofrido implacáveis perseguições de escolas literárias, entre elas o modernismo e pós-modernismo brasileiros, sempre com resultado feliz para o soneto, que até os dias atuais é reverenciado como o estojo de joias mais precioso e pretendido por todo e qualquer poeta, haja vista a sentença de Otto Lara Rezende:
“O soneto está em todas a literaturas e, desde o século XIII, resiste a todas as revoluções. Não há, a rigor, grande poeta que não tenha sonetado. (...) O soneto é, a bem dizer, a carta de identidade de um poeta.”
(Otto Lara Resende)
Meu blog http://joseantoniojacob.blogspot.com/ encontra-se em fase de atualização (muitas páginas estão sendo atualizadas e por isso encontram-se inabilitadas para o leitor). Recomendo-lhe clicar neste link http://artculturalbrasil.blogspot.com/, onde amantes da literatura poética brasileira; professores e alunos da matéria, poderão encontrar um Curso de Letras completo, com a vantagem da leitura e da biografia de vários grandes poetas brasileiros, além das Escolas Literárias que existiram no Brasil, desde sua descoberta em 1500.
Com estima e votos de saúde e paz