Pág. 64 - Solidão (comentado)




Comentário
Editora de Literatura ArtCulturalBrasil
Arapongas - Paraná
granzoto@globo.com


Solidão
(José Antonio Jacob)

Meu céu cinzento é um teto em minha sala
E nele eu vejo os dias da poltrona,
Se eu quero dar um passo uso a bengala,
Tenho uma artrite que não me abandona.

Passo nas juntas óleo de mamona,
Pois quando dobro o joelho a perna estala.
Na minha casa nada mais funciona
E eu ligo o rádio, mas ele não fala...

Chego à janela e fico a olhar auroras,
Falo sozinho o dia inteiro à toa,
Eu não tenho aonde ir! Não tenho mais aonde!

Para escutar a voz de outra pessoa
Eu saio às ruas perguntando as horas,
Mas quem passa por mim não me responde.




Introdução

Este poema de José Antonio Jacob sempre me causa um enorme fascínio a cada leitura!

Gosto da solidão. Nela e com ela aprendi a refletir sobre a minha vida, sobre o estado de coisas que se me apresentam durante a caminhada. A solidão é como essência do ser humano. Cada pessoa vem ao mundo sozinha, atravessa a vida como um ser em separado e, no final, morre sozinho. Aliás, sou filha única e, talvez, isso tenha colaborado para que a minha solidão se consolidasse a cada ano. Tenho amigos, familiares, mas vivo em solidão!

Primeira estrofe

Meu céu cinzento é um teto em minha sala
E nele eu vejo os dias da poltrona,
Se eu quero dar um passo uso a bengala,
Tenho uma artrite que não me abandona.

A metáfora “ meu céu cinzento é um teto em minha sala,” tem muito a nos dizer: em sendo teto o céu, é imenso! Perde-se no horizonte. Mas não é determinante porque é “ um teto” e não “o teto”. Em seu crescimento como indivíduo, o ser humano começa um processo de separação ainda no nascimento, a partir do qual continua a ter uma independência crescente até a idade adulta. Desta forma, sentir-se sozinho pode ser uma emoção saudável e, de fato, a escolha de ficar sozinho durante um período de solitude pode ser enriquecedora. E ele vê os dias, embora o ceú esteja cinzento. Quem sabe a artrite mencionada não seja uma das razões. E por que artrite? A palavra em si, seja pelo forte encontro consonantal, seja pela vogal “i” é um termo gritante, bastante genérico para aproximadamente 100 doenças que produzem ou uma inflamação no tecido conjuntivo (particularmente nas articulações), ou uma degeneração não-inflamatória desses tecidos.Implica, pois, em articulações afetadas por algo que incomoda ou em algo que perdeu a qualidade primitiva. Portanto, esta poderá não ser uma solidão passageira ou saudável! E a cor atribuída ao céu, pode simbolizar o medo de estar só, mas é também uma cor que transmite estabilidade, sucesso e qualidade.E aí enquadra-se nosso poeta mineiro, creio eu!

Segunda estrofe

Passo nas juntas óleo de mamona,
Pois quando dobro o joelho a perna estala.
Na minha casa nada mais funciona
E eu ligo o rádio, mas ele não fala...

O autor “lubrifica”, massageia as “juntas”, Isto é, as articulações com o objetivo de minimizar o desconforto que sente em seu joelho...(Parte de ligação entre a perna e a coxa). A articulação não está a contento. Nada funciona. Nem na casa. O rádio não fala (na verdade, quem fala é o locutor...), mas poderia emitir sons outros, caso fosse o aparelho emissor ou receptor. Ou seria o “rádio” do antebraço? Ambos são elementos de ligação, de comunicação ( algumas pessoas gesticulam muito ao falar ). E ambos não falam. São aparelhos. E a omissão assinalada pela reticência? Para mim, diz muito! E a mamona? Na verdade, produz mais o óleo de rícino e é aproveitada como biodiesel. Seus frutos, que guardam as sementes, são espinhentos e venenosos! Oito sementes ingeridas podem matar um adulto! Às vezes, os remédios populares, não curam o mal do qual se padece. Muito menos a solidão, que poderá ser espinhosa...

A terceira estrofe

Chego à janela e fico a olhar auroras,
Falo sozinho o dia inteiro à toa,
Eu não tenho aonde ir! Não tenho mais aonde!

“ Chego à janela e fico a olhar auroras,”! Não é apenas a aurora! São várias! Aurora era a deusa romana do amanhecer, equivalente à grega Eos. Aurora é a palavra latina para amanhecer. Aurora renovava-se toda manhã ao amanhecer e voava pelo céu anunciando a chegada da manhã. Tinha como parentes um irmão, o Sol, e uma irmã, a Lua. ... (pt.wikipedia.org/wiki/Aurora_(mitologia)) Quantas? A aurora se renova a cada dia e traz o sol, traz a lua. E ambos nunca são vistos em dias de céu cinzento... E a aurora tinha irmão, irmã. “Portanto, não precisava falar o dia inteiro sozinha...” Eu não tenho aonde ir! Não tenho mais aonde!”Aonde, advérbio de lugar, com prefixo preposicional requisitado por verbo caracterizando deslocamento. Dá idéia do lugar a que se vai ou se pretende ir e, também, ao qual uma coisa é enviada. É usado como adjunto de verbo de movimento: no caso, o verbo ir. Não há mais espaço que o acolha em sua solidão! Mas havia e o indicativo é o uso de” mais”.É o sentimento em que o poeta sente uma profunda sensação de vazio e isolamento. A solidão é mais do que o sentimento de querer uma companhia ou querer realizar alguma atividade com outra pessoa não por que simplesmente se isola mas por que os seus sentimentos precisam de algo novo que os transforme.

A última estrofe

Para escutar a voz de outra pessoa
Eu saio às ruas perguntando as horas,
Mas quem passa por mim não me responde.

A solidão não requer a falta de outras pessoas e geralmente é sentida mesmo em lugares densamente ocupados. Pode ser descrita como a falta de identificação, compreensão. A solidão ocorre com frequência em cidades densamente populosas; nestas cidades muitas pessoas podem se sentir totalmente sozinhas e deslocadas, mesmo quando rodeadas de pessoas. Elas sentem a falta de uma comunidade identificável numa multidão anônima. É incerto se a solidão é uma condição agravada pela alta densidade populacional ou se é uma condição humana trazida à tona por tal estrutura social. De fato a solidão ocorre mesmo em populações menores e menos densas, mas a quantidade de pessoas aleatórias que entram em contato com o indivíduo diariamente numa cidade grande pode levantar barreiras de interação social, uma vez que não há profundidade nos relacionamentos, e isso pode levar à sensação de deslocamento e solidão. A quantidade de contatos não se traduz na qualidade dos contatos. O grifo é nosso. A solidão é um sentimento que gera angústia e que nos coloca diante de um portal em um mundo interior onde a chave é o sentido do mundo, o porquê das coisas, as perguntas que fazemos e para as quais não encontramos respostas. A solidão também pode ser uma experiência de transcendência. Em seu livro sobre a Escola da Ponte, de Portugal, o escritor Rubem Alves cita que os mestres “zen” não pretendiam ensinar coisa alguma na forma como entendemos na educação ocidental. O que desejavam era levar seus discípulos a “desaprender” o que sabiam, a ficar livres de qualquer filosofia. Talvez precisemos também desaprender e permitir despertar a lucidez na solidão. O poeta Jacob escreve que as pessoas “passam” por ele e não respondem! Passam! Não cruzam, nem se encontram... O sentimento de solidão é agravado pela impessoalidade das gentes!

Conclusão

Em algumas pessoas, a solidão temporária ou prolongada pode levar a notáveis expressões artísticas e criativas como, por exemplo, Emily Dickinson. Isto não implica dizer que a solidão desencadeia criatividade, ela simplesmente foi, neste caso, uma influência no trabalho então realizado pelo artista. O psicoterapeuta Flávio Gikovate cita que a solidão é boa, que ficar sozinho não é vergonhoso. Ao contrário, dá dignidade à pessoa. As boas relações afetivas são ótimas, são como ficar sozinho: ninguém exige nada de ninguém e ambos crescem. Todas as pessoas deveriam ficar sozinhas de vez em quando, para estabelecer um diálogo interno e descobrir sua força pessoal. Na solidão, o indivíduo entende que a harmonia e a paz de espírito só podem ser encontradas dentro dele mesmo. A título de ilustração, um dos primeiros usos a serem gravados da palavra "solitário" está na tragédia Coriolanus, Ato IV Cena 1, de William Shakespeare, escrita em 1608.

A solidão, assim como a doença, pode ser um caminho amadurecido para uma vida melhor. É preciso que tenhamos a coragem de aprender com ela e não apenas rejeitá-la. Rejeitar nossa solidão é o mesmo que rejeitar nossos defeitos, nossas misérias humanas, nossas imperfeições!

Lindo poema, grande poeta Jacob!

Referências

↑ Lonely Nation: Americans Try to Connect in a Country Where Isolation Is Common. Healthyplace.com, 5-8-2006.   

↑ Loneliness and Isolation: Modern Health Risks. The Pfizer Journal IV (4), 2000.

↑ Social Isolation in America: Changes in Core Discussion Networks over Two Decades. American Sociological Review 71 (3), 353-375.

↑ An Existential View of Loneliness. Carter, Michele. Abiding Loneliness: An Existential Perspective. Park Ridge Center, 2000.

↑ The Truth About Antidepressants. WebMD.

↑ Alternative treatments for depression. WebMD.

↑ Health Benefits of Pets. Centers for Disease Control and Prevention.


Poesia de Bolso - Ed. ArtCulturalBrasil/2011





POESIA DE BOLSO
ÍNDICE


Sonetos

7/ Desenho (Comentado)
8/ Sonho de Papel (Comentado)
9/ Florzinha (Comentado)
10/ Impulsão (Comentado)
11/ Bolhas de Sabão (Comentado)
12/ Fim de Jornada (Comentado)
13/ Amor -Próprio Ferido
14/ A Dança dos Pares Perdidos
15/ Afronta Impiedosa (Comentado)
16/ Almas Primaverais
17/ Casinha de Boneca
18/ Nós Somos Para Sempre
19/ Sonhando (Comentado)
20/ Faltas e Demoras
21/ Velho Órfão
22/ Silêncio em Casa
23/ Quanto Tempo nos Resta? (Comentado)
24/ Enigma
25/ Despercebimento
26/ Porta-retratos
27/ Roseiras Dolorosas
28/ Sonho Quebrado
29/ O Espelho
30/ O Palhaço (Comentado)
31/ Varal de Luzes
32/ História sem Final
33/ O Beijo de Jesus (Comentado)
34/ Musa do Ano Novo
35/ Natal dos meus Sonhos (Comentado)
36/ O Ano Bom do Bom Fantasma
37/ Domingo em Casa
38/39/ Elogio à dor do Desamor I e II
40/ Almas sem Flores
41/ Crença
42/ Além da Porta
43/ Alminha
44/ Carretéis
45/ Os Afogados
46/ Jardim sem Flores (Comentado)
47/ Mudança
48/ O Vira-lata (Comentado)
49/ Revelação
50/ O Vendedor de Bonequinhos
51/ Repouso no Sítio (Comentado)
52/ Tédio
53/ Crepúsculo de uma Árvore
54/ Noite Fria
55/ Oração do Descrente
56/ Não Despertes Sonhos Nos Meus Dias
57/ Falsidade
58/ Renascer
59/ Poodle
60/ Prisioneiro
61/ A Mãe e a Roseira
62/ A Saudade Sempre Pede Mais
63/ Sublimação (Comentado)
64/ Solidão (Comentado)
65/ Esperança Morta
66/ A Aurora da Velhice
67/ Mãos nos Bolsos
68/ Figurinhas
69/ História Boa
70/ Soneto para o Poeta Triste
71/ Minha Senhora
72/ Soneto de Natal
73/ O Pai e a Terra
74/ Minha Mãezinha
75/ Brinquedo
76/ Alegoria
77/ Almas Raras
78/ Angústia
79/ As Formigas
80/ Velhice Feliz
81/ Na Poltrona
82/ Oração do Dia dos Pais
83/ Ócio e Solidão
84/ A Prece do Capuchinho
85/ Último Delírio
86/ Canção do Rio
87/ O Verso Único
88/ Páscoa
89/ De Volta aos Quintais
90/ Amada Sombra que Persigo
91/ Eu Creio Sim!
92/ Coelhinho da Páscoa
93 Restou uma Poesia
94/ Meu Presépio

Quadra
95/ Veritas (Comentado)

Sextilhas
96/ Delírios de Maio (Comentado)
100/101/ Passeio na Cidade
102/ Natal na Rua da Miséria (Comentado)
104/105/ Uma Temporada na Roça
106/ O Fantasma que mora em meu Sofá
108/ Filhos de Minas






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(Acróstico Poético)
(Apresentação de Maria Granzoto da Silva)

Resposta ao Passado
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(especial ArtCulturalBrasil)

Além da Porta
(Vídeo de Dorival Campanelle)

Noite no Bar

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Trailer 1

Poesia de Bolso - Ed. ArtCulturalBrasil/2011




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